Iniciação esportiva: Lutas e Artes Marciais para crianças

Colocar os filhos para lutar, como assim? Crianças nas artes marciais é ou não é perigoso? E para quem deseja dar aulas para crianças, como faz? O que os pais precisam saber? E onde a psicologia do esporte pode se encaixar nisso tudo?

Essas e outras perguntas serão respondidas no texto abaixo.

Boa leitura!

Iniciação esportiva x Especialização na infância

Muito se discute sobre a iniciação esportiva, que é o momento no qual a criança se insere em uma prática regular, orientada e estruturada de uma ou mais modalidades esportivas. É comum que os pais coloquem as crianças em clubes ou “escolinhas” de modalidades associadas ao bem-estar ou culturalmente valorizadas, como a natação ou o futebol.

No entanto, também é possível encontrar pais ou mesmo crianças interessadas nas Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. Afinal, elas vivem cercadas de personagens de desenhos e filmes que encarnam o papel do “herói” como um lutador ou um expert em Artes Marciais.

Diversos autores elencam os benefícios da iniciação esportiva, tais como:

  • Desenvolvimento das capacidades de desempenho corporal, cognitivo e motor;
  • Aspectos sociais como: cooperação, convivência, participação, inclusão e satisfação;
  • Entre outros benefícios afetivos e psicossociais.

Por outro lado, há o tema controverso da especialização precoce, ou seja, de inserir a criança em um ambiente altamente competitivo, de alto desempenho. Para diversos especialistas, a especialização precoce pode trazer inúmeros prejuízos e complicações para a criança. O foco em um ambiente competitivo de alto rendimento, além de pouco indicado, pode provocar na criança:

  • Estresse e burnout;
  • Ansiedade e Frustração;
  • Aversão, abandono precoce da modalidade ou dos esportes como um todo;
  • Além de comprometimentos físicos (lesões, por exemplo).

Por isso, é importante não tratar a criança como um mini-adulto e considerar que elas podem não estar aptas a suportar uma carga física e psicológica além de suas condições.

As Lutas e Artes Marciais para crianças

Certamente, um dos primeiros desafios relacionados a prática por parte das crianças é desassociar as Lutas e Artes Marciais com a violência. No senso comum, há um preconceito ou uma ideia errônea praticar uma arte marcial é sinônimo de machucar ou se lesionar.

Ademais, o ensino das modalidades de lutas para as crianças deve ser baseado nas etapas do desenvolvimento infantil. Ou seja, entendendo como as crianças desenvolvem as habilidades motoras, afetivas e cognitivas ao longo do tempo.

crianças

A infância é um período crucial, no qual o sujeito irá adquirir todo um repertório motor de habilidades que servirá de base para as outras fases da vida. Por isso, é importante elaborar atividades que sejam adequadas para cada faixa etária.

Esse esquema de ensino pode ser representado em 4 etapas:

1. Dos 4 à 6 anos:

Esta é a fase em que as crianças estão descobrindo o mundo, explorando o conteúdo simbólico através da imitação e imaginação. Por isso, ordenar que as crianças se coloquem em fila é menos eficaz do que pedir que elas “imitem uma flecha”, por exemplo.

Exercícios que trabalhem a senso-percepção corporal são bastante aplicáveis. Movimentos como saltar, girar, empurrar, puxar, abraçar, apreender, entre outros movimentos fazem parte de conteúdos das artes marciais podem ser ensinados.

2. Dos 7 à 9 anos:

Nessa faixa criança, a criança exibe uma boa capacidade de retenção e recordar os movimentos mais específicos (memória), também  compreende melhor as normas de convivência e as regras da atividade. É possível começar a desenvolver as valências como força, velocidade, agilidade, equilíbrio, coordenação, além de trabalhar a lateralidade.

3. Dos 10 à 12 anos:

Aqui a criança está no auge das capacidades perceptivas. Portanto, podem ser explorados jogos e brincadeiras com conteúdos das lutas e artes marciais (luta de oposição, sombra etc.).

4.Adolescência:

O adolescente vai se afastando do imaginário infantil, porém ele não é um adulto. Portanto, as estratégias lúdicas, muito bem elaboradas e associadas com o ensino e aprimoramento de técnicas são bem mais aceitas. Ou seja, a brincadeira não pode ser inocente ou infantil e o treino não deve ser muito pesado.

A tarefa do professor é encontrar uma ou várias fórmulas que contemplem os elementos de ludicidade e técnica.

A especificidade das Lutas e Artes Marciais

No momento da iniciação esportiva, é possível ensinar às crianças ensinar valores éticos, sociais e morais através das várias experiências que o contexto esportivo pode oferecer. Isto vem a auxiliar na formação de um sujeito preparado para as diversas situações cotidianas.

Nesse caso, é o momento oportuno do professor ou treinador se aproveitar do conteúdo inerente das Artes Marciais, isto é, de um resgate histórico dos aspectos filosóficos (códigos de ética, por exemplo, o Bushido) e de autoconhecimento (o Budô, por exemplo) dessas modalidades.

crianças

Valores como respeito, disciplina, autoestima, autoconfiança, desenvolvimento da paciência, como lidar com frustrações, resiliência, independência etc. podem (e, teoricamente, devem) ser ensinados. As modalidades esportivas também conferem um ambiente de experimentação, visando o respeito as regras, o espírito esportivo e a competição saudável.

Independente da criança ou adolescente continuar ou não na prática de luta ou marcial, o modo como os conhecimentos e técnicas são transmitidos, as experiências e o ambiente podem fornecer bases para qualidade de vida e para a trajetória pessoal desse sujeito.

Vale ainda lembrar que crianças se espelham e aprendem através dos exemplos (modelos), conferindo ao professor / mestre / instrutor um papel crucial no desenvolvimento. É muito comum que elas introjetem vários princípios e valores do professor, e é possível se valer dessa relação professor-aluno (senpai-kohai).

Colocar os filhos na academia: aspectos a serem observados

Para orientar e aliviar os pais e familiares que pretendem colocar os filhos nas lutas, cabem algumas sugestões. Primeiramente, é importante verificar as competências e habilidades do professor, se ele tem um histórico favorável com crianças, qual é a sua formação (com quem ele treinou? é federado? tem alguma graduação acadêmica?), a “filosofia” e a metodologia de treino utilizada.

Sistemas de ensino repetitivos, práticas pouco estruturadas ou planejadas e rotinas mecânicas não são desejáveis para os pequenos. É importante notar se há uma prática pedagógica, por parte do professor, que se interesse em conhecer seus alunos, as características, necessidades e interesses. O incentivo ao espírito de grupo e cooperação também é importante.

Em relação a estrutura do local, cabe observar o tatame, a utilização de equipamentos de proteção adequados e a limpeza do local. Por fim, verificar se não há incentivo à violência gratuita e outras práticas não-pedagógicas.

E a Psicologia do Esporte?

A inserção do psicólogo esportivo nesse cenário acontece de diversas maneiras, mas em geral, pode-se dizer que ele estabelece uma ponte. Sabe-se que o momento de ingresso em uma modalidade esportiva pode despertar diversas dúvidas (por parte dos familiares ou da criança), mal-entendidos e expectativas. Portanto, o psicólogo irá atuar com a tríade pais-crianças-professor.

O psicólogo do esporte deve também compreender o esporte como um instrumento que poderá ser utilizado na busca de autonomia e autoestima; como ferramenta de transmissão da educação e manutenção ou alcance da saúde e qualidade de vida.

Com isso, o psicólogo pode facilitar as relações, executando um trabalho interdisciplinar com os professores / instrutores. Também pode aproximar a família desse contexto e auxiliar a criança na compreensão de suas necessidades e no desenvolvimento da sua autonomia. É possível pensar em atuações como:

  • Observações de como a(s) criança(s) lida(m) com as experiências;
  • Realizar intervenções com as crianças juntamente com a presença do professor /instrutor (trabalho em conjunto);
  • Planejar e desenvolver, junto ao professor, o desenvolvimento de habilidades (motoras, cognitivas, sociais, afetivas);
  • Conhecer as expectativas dos pais, bem como informá-los sobre as características da prática esportiva com crianças (através de reuniões de pais, por exemplo).

No contexto das Artes Marciais e Lutas, é interessante também que as intervenções estejam voltadas para resgatar e ressaltar o caráter formativo dessas modalidades. Portanto, cabe ao psicólogo do esporte buscar um amplo conhecimento filosófico e científico em relação as Lutas e Artes Marciais. Tal conhecimento permite ter uma visão ampliada de quais aspectos poderão gerar benefícios para a formação, saúde e para o rendimento do atleta ou praticante.

Recapitulando

  • O ensino das Lutas para crianças deve ser baseado nas etapas de desenvolvimento e aprendizagem;
  • Cuidado: exigir mais do que a criança pode oferecer pode trazer sérios prejuízos;
  • É importante que os pais fiquem ligados quanto ao estilo do treinador, suas competências e a metodologia de ensino utilizada;
  • Criatividade e ludicidade são sempre bem-vindas nas aulas para crianças;
  • A prática deve ser de acordo com seus benefícios: desenvolvimento físico, mental e social, a para aprendizagem de valores, condutas e atitudes;
  • Em psicologia do esporte com crianças praticando artes marciais, é desejável que as intervenções voltem-se para resgatar e ressaltar o caráter formativo dessas modalidades.

Referências

ALMEIDA, Luiz Tadeu Paes de. Iniciação Esportiva na escola – a aprendizagem dos esportes coletivos. Disponível em: http://www.boletimef.org.br.

CAMPOS, W. Criança no esporte. Curitiba: UFPR: EDUFPR, 2004.

COLUMÁ, Jorge Felipe. Como ensinar lutas e artes marciais para crianças. Disponível em: https://goo.gl/L3kDje.

GABARRA, Letícia Macedo; RUBIO, Kátia; ANGELO, Luciana Ferreira. A Psicologia do Esporte na iniciação esportiva infantil. Disponível em: https://goo.gl/ez2M8y.

GERMANO, Rafael Ribeiro; MOURA, Helder Barra de. A importância dos movimentos básicos de lutas para as crianças na educação física escolhar. Disponível em: http://re.granbery.edu.br/artigos/NDE2.pdf.

RAMOS, Adamilton Mendes. A iniciação esportiva e a especialização precoce  à luz da teoria da complexidade – Notas Introdutórias. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/fef/article/view/1786/3339.

SAMULSKI, Dietmar Martin. Psicologia do Esporte: Conceitos e Perspectivas. 2 ed. Manole. São Paulo, 2009.
VERARDI, Carlos Eduardo Lopes. Iniciação Esportiva: A influência de pais, professores e técnicos. Disponível em: https://revista.eefd.ufrj.br/EEFD/article/download/75/44.

 

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