Lesionei, e agora?

Lesionei, e agora?” é uma pergunta comum no contexto esportivo. Embora não seja tão conhecido, este campo das lesões e da reabilitação também é uma área de atuação do psicólogo do esporte. Nesse sentido, o profissional pode atuar de duas formas: 1) na reabilitação do atleta ou praticante lesionado e 2) na reabilitação pelo esporte.

Sabe-se que número de praticantes de artes marciais e esportes de combate cresce a cada ano. Com um número maior de envolvidos, é óbvio que o número de lesões também aumentou. As lesões podem trazer inúmeros comprometimentos para os atletas e praticantes de atividades físicas, desde a queda no rendimento até prejuízos no bem-estar psicológico.

Por isso, o artigo abaixo irá abordar algumas lesões comuns e fatores de risco, discutir brevemente as possibilidades de prevenção e o processo de reabilitação, a partir dos aspectos psicológicos envolvidos nesse processo.

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As artes marciais são mais perigosas?

Existe uma ideia bastante difundida no senso comum de que as artes marciais e esportes de combate são mais perigosas quando comparadas com outros esportes. O apelo midiático contribui para fomentar essa concepção, principalmente com a divulgação de “artes mortais”, “técnicas fatais” ou por categorizá-las como violentas, propensas a um alto índice de lesões entre os praticantes.

Claro, nada poderia estar mais distante da realidade. É fato que essas modalidades podem exigir um grau maior de controle e tolerância a dor, que está associado ao desempenho esportivo. Porém, há outros esportes, principalmente os de contato direto, em que esse controle da dor é melhor aproveitado.

lesionei, e agora

No que tange ao número de lesões entre os atletas e praticantes, alguns estudos apontam que nas artes marciais elas são menos comuns quando comparadas a outras modalidades esportivas (como basquete, handebol, futebol etc). Acidentes e lesões podem acontecer em qualquer esporte, ou seja, isto não significa que são exclusivas das modalidades de lutas.

Ademais, diversos elementos tais como equipamentos de proteção, acompanhamento de um treinador experiente e execução de técnicas de maneira correta, por exemplo, ocupam um papel importante na condução de um treino mais seguro e na prevenção das lesões.

Prevenir é melhor do que remediar

Antes de abordar as lesões e a reabilitação, é importante elencar alguns fatores que podem contribuir para sua prevenção. Afinal de contas, como dizem no dia-a-dia: é melhor prevenir do que remediar.

De modo geral, podemos definir três estratégias básicas de prevenção de lesões nas artes marciais e esportes de combate:

  1. Educação: Centra-se em promover e educar para práticas seguras, bem orientadas e baseadas no respeito, principalmente com instruções para o uso dos equipamentos de proteção (capacetes, luvas, protetores bucais, etc.);
  2. Proteção ambiental: São procedimentos que não necessitam da intervenção do praticantes, como utilizar o terreno adequado para a prática ou o tipo de material do tatame, por exemplo;
  3. Execução correta das técnicas: Depende da presença de instrutores e treinadores bem formados, que regulem adequadamente a atividade e as técnicas executadas, além do treinamento apropriado para cada modalidade e de acordo com as características de cada atleta ou praticante.

Claro que este é um campo imprevisível, sendo que muitas vezes mesmo com a segurança, prevenção e atenção na prática, um ou outro ainda pode se lesionar. É um risco presente da prática esportiva.

Há que se atentar também para a sensação de falsa segurança que pode ser gerada pelo uso dos equipamentos. Essa falsa sensação de segurança poderá facilitar o uso de técnicas mais perigosas ou uma ousadia para além do limite do sujeito. Por isso, os instrutores devem ficar atentos a estes comportamentos em atletas durante os treinos e competições.

Tipos de lesões e fatores de risco

De modo geral, as lesões podem ser classificadas como:

  • Agudas: início repentino como resultado de um fato agudo imediato
  • Crônicas: começam de forma lenta e incidiosa, com aumento gradual do dano estrutural. Ex: aquele joelho que sempre “reclama” durante os treinos.

Nas artes marciais, são comuns lesões como contusões, fraturas, estiramentos musculares, luxações, entorses e concussões.

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Fatores de risco e causas comuns

As causas das lesões podem se relacionar com um ou vários fatores, tais como:

  • Falta de habilidade técnica ou de conhecimentos básicos;
  • Desequilíbrio corporal em certas cadeias musculares;
  • Cansaço, fadiga, desatenção ou má alimentação;
  • Falta de treino físico, técnico, tático e psicológico;
  • Desigualdade entre os rivais (enfrentar um oponente mais forte ou melhor preparado);
  • Sobrecarga de treinamento ou um treinamento mal conduzido;
  • Entre outros.
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Fatores psicológicos associados ao desenvolvimento de lesões

Conhecer as características dos atletas também é importante, pois fatores como personalidade, estratégias de enfrentamento (coping) e estresse psicológico são apontados como fatores de risco no desenvolvimento de lesões. Segundo alguns autores, tais fatores podem levar a uma redução no campo visual, maior distração e tensão muscular, aumentando o risco do atleta se lesionar.

Isto não quer dizer que estes fatores causam as lesões, mas que podem estar associados a sua ocorrência. Portanto, permite minimizar os riscos dessa ocorrência.

Lesionei, e agora?

A lesão não é só acompanhada de aspectos físicos, mas também de reações comportamentais, cognitivas e emocionais que afetam o atleta. Pode ser um momento de sofrimento e perdas, cujo modo como se reage irá depender das características do lutador / atleta, do seu histórico e do ambiente no qual ele está inserido.

Aspectos psicológicos: o medo e a ansiedade

A frustração, diminuição da autocofiança, impaciência, apreensão, raiva, tristeza, desistência da reabilitação são reações comuns. Assim como as incertezas e preocupações sobre o retorno, sobre o tempo da reabilitação, sobre o retorno às lutas e o desempenho esportivo. As frustrações podem se agravar caso esteja próximo ao período competitivo.

Nesse rol de reações possíveis, talvez as mais facilmente identificáveis e discutidas sejam o medo e a ansiedade. É comum a preocupação em não conseguir executar os movimentos novamente; gerando também receio e insegurança de ter outra lesão.

Ou, por outro lado, pode existir uma pressa em se recuperar, podendo não realizar o processo de forma adequada.

Um exemplo disso está também na falta de confiança que o atleta pode apresentar na realização de determinadas técnicas, principalmente aquelas que originaram a lesão – como no caso de Anderson Silva, que precisou de acompanhamento psicológico para lidar com o medo de chutar.

É nesses (e também em outros momentos) que o trabalho do psicólogo do esporte pode fazer toda a diferença.

A reabilitação e o retorno ao ringue

Já sabemos que o processo de lesão envolve aspectos psicológicos, trazendo várias repercussões para a vida do atleta. Portanto, o processo de reabilitação ideal é aquele realizado em equipe interdisciplinar: médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas etc.

Não é incomum ver que atletas / lutadores encerrem suas carreiras, ou que praticantes abandonem o esporte em decorrência das lesões. As razões podem ser inúmeras, porém, identifica-se a falta de apoio social, ausência informações claras sobre a lesão e de definição de objetivos estão entre os motivos desse fenômeno.

Lesionei, e agora

É importante que o lutador ou praticante se engaje no processo de reabilitação. Por isso, a rede de apoio ou o suporte social (familiares, amigos, companheiros de treino, comissão técnica etc.) cumpre um papel importante na recuperação, através da assistência, compartilhamento de informações, incentivo, ouvir sem julgamentos, encorajamento e conforto emocional.

Como já dito anteriormente, é preciso conhecer as características de personalidade do lutador, o nível de motivação e engajamento, o estado de humor e outros aspectos. A ocorrência repetitiva de lesões também deve ser verificada, pois pode servir de alívio da pressão no esporte.

No geral, as intervenções serão desenvolvidas de maneira a diminuir os sofrimentos, contribuir com estratégias de enfrentamento do problema, estabelecer ou reforçar comportamentos que potencializem o processo de reabilitação.

O trabalho do psicólogo pode contemplar:

  • A escuta das queixas, dos sofrimentos, inseguranças e medos, desenvolvimento da empatia;
  • Desenvolver a motivação (envolvimento e disciplina);
  • Fortalecer a autoestima e auto-confiança;
  • Estabelecer metas de curto, médio e longo prazo;
  • Controlar a ansiedade (através de técnicas, como a visualização mental ou relaxamento, por exemplo);
  • Preparar o atleta para o retorno das atividades esportivas.

Aliás, o retorno é um momento delicado, pois é algo ansiado por muitos atletas – em que o medo de voltar a se lesionar e de passar novamente pelo processo de reabilitação comumente se faz presente. Por isso, não somente a equipe de médicos, fisioterapeutas e psicólogos deve auxiliar, mas o próprio atleta deve ser encorajado a assumir um papel ativo no tratamento.

Dessa forma, é possível um retorno saudável e confiante ao ringue / tatames.

Recapitulando

  • As Artes Marciais e Esportes de Combate não são “naturalmente” violentas, lesões acontecem no contexto esportivo como um todo;
  • É possível prevenir, mas não é garantia de que lesões não irão ocorrer;
  • A lesão pode acarretar não somente em prejuízos físicos, mas também emocionais, cognitivas e comportamentais;
  • O lutador ou praticante pode ter medo de executar uma técnica ou de voltar aos treinos e se lesionar novamente;
  • O acompanhamento por uma equipe multiprofissional faz toda a diferença para um retorno saudável aos ringues (ou ao tatame);
  • O engajamento e iniciativa do atleta possuem um papel decisivo na recuperação.

Referências

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NUNES, Carlos Roberto de Oliveira et al . Processos e intervenções psicológicas em atletas lesionados e em reabilitação. Rev. bras. psicol. esporte,  São Paulo ,  v. 3, n. 1, p. 130-146, jun.  2010

SAMULSKI, Dietmar. Psicologia do Esporte – conceitos e novas perspectivas. São Paulo: Manole, 2009.

SILVA, J.C.; BRANDÃO, M.R.F.; BRAGANÇA, J.R.; MAGNANI, A.I.P.; POLITO, L.F.T.; ZANETTI, M.C. Implicações Psicológicas das Lesões Esportivas em Atletas de Judô Paralímpico. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 20, n. 3 p. 399-409, jul./set. 2015.

TENVERGERT, E.; TENDUIS, H.; KLASEN, H. Trends in sports injuries, 1982-­1988: an in-­depth study of four types of sport. Journal of Sports Medicine & Physical Fitness, 1992, 32:214-­220.

VASCONCELOS-RAPOSO, José; CARVALHO, Rute; TEIXEIRA, Carla M.; NETO, Jaime Tolentino. Relevância da intervenção psicológica em casos de lesão de atletas. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto. 2014, Vol. 14 p. 110-131.

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