Motivação no Esporte

É comum falar que este ou aquele atleta está desmotivado para competir. Que o lutador “X” está motivado a ganhar um cinturão de MMA. Ou seja, dentro do contexto esportivo a motivação é um assunto importante.

Muito se fala, mas às vezes pouco se define. Ou pior, há muita gente que toma decisões erradas no contexto esportivo por não saber o que é ou como trabalhar a motivação de forma adequada.

Por isso, neste artigo você vai:

  • Saber o que é e como funciona a motivação;
  • Entender porque palestras motivacionais aplicadas a torto e a direito geralmente não funcionam;
  • E como essa dinâmica motivacional se dá no contexto das Artes Marciais e Esportes de Combate.

Bora!

O que é Motivação?

Quando se quer entender o que é motivação, geralmente algumas perguntas surgem: o que leva um indivíduo a realizar determinada ação? O que leva a se empenhar para alcançar determinado resultado? Qual é o seu objetivo?

De modo geral, a motivação é definida como um comportamento ativo e intencional, que é dirigido a uma meta e depende de fatores pessoais (intrínsecos) e situacionais (extrínsecos).

É intencional, pois está no campo do interesse, do desejo, ímpeto e necessidade do indivíduo. E é concebida como uma força psicologicamente dirigida. Por isso, para alguns autores é correto falar de qualidade e não em quantidade de motivação.

motivação

Fonte: classpass.com

O motivo é simplesmente aquilo que dá início e dirige o comportamento. É individual e depende tanto das experiências pessoais, como também dos incentivos presentes em uma determinada situação.

É válido ressaltar que os motivos podem impulsionar ou repelir cada indivíduo de forma diferente e o mesmo se aplica aos atletas. Uma mesma atividade ou exercício pode ser realizada de forma animada, por motivos diferentes e variados níveis de intensidade por uns, bem como pode ser feita de forma desleixada por outros.

Em geral, uma pessoa pode ter como fonte para suas ações motivos internos ou externos. Daí falamos em:

Motivação intrínseca

Também chamada de regulação autônoma, associa-se à competência e autodeterminação. É quando a pessoa vai ao encontro de suas aspirações por influências pessoais, seja por: características de personalidade, necessidades, interesses, metas e expectativas.

Relaciona-se também com o superar desafios ou suas próprias limitações. Ou seja, a regulação autônoma satisfaz as necessidades psicológicas básicas de autonomia, competência e relação – o que leva a um maior engajamento (é “dar o sangue” pelo time, por exemplo).

Para muitas teorias, essa seria a forma mais desejada de motivação, pois o sujeito pode expressar sua autonomia. E também está relacionada positivamente ao bem estar psicológico e adaptação positiva dos sujeitos.

Exemplo: alguém que sente prazer e bem estar em correr ou andar de bicicleta.

Motivação extrínseca

É aquilo que é externo ao sujeito, ou seja, compreende fatores como: as recompensas e incentivos, a estrutura ambiental e os recursos materiais, a dificuldade da tarefa realizada e a competência dos adversários. São chamados também de fatores ambientais ou situacionais.

É quando o meio favorece o através de: incentivos, estilo de liderança, tarefas atrativas, desafios e facilidades, influências sociais etc. Esses fatores situacionais podem contribuir para a manutenção do comportamento motivado e do engajamento na tarefa, mas não é aconselhável tornar os sujeitos dependentes.

Aliás, é desejável que os sujeitos internalizem os fatores externos, estimulando a automotivação.

As metas extrínsecas ou metas de desempenho tendem a ser orientadas em direção a comparações interpessoais. Alguns exemplos: reconhecimento social, dinheiro ou premiações, aparência física.

 

Pode-se dizer quer a motivação é multidimensional, pois envolve um complexo jogo de interação entre fatores ambientais, pessoais e suas consequências.

Por que palestras “motivacionais” não funcionam?

No contexto organizacional, há uma cena que é muito comum: gestores de recursos humanos ou até mesmo psicólogos, às vezes munidos da melhor das intenções, ao ver que uma equipe de trabalho está desmotivada e apresentando poucos resultados, resolvem trabalhar esse aspecto.

Assim, separam um dia ou alguns horários de serviço, reúnem a equipe em uma sala e boom: um festival de vídeos do Gladiador e músicas inspiracionais salta sobre a tela do retroprojetor. Na hora, alguns podem até achar interessante, mas daqui algumas semanas ninguém vai se lembrar disso. Nada ressoou nos participantes e tudo continua da mesma forma.

Terrível, não? E olha, isso não é tão distante de uma realidade que já aconteceu no contexto esportivo!

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Jiujitsu: a arte suave. Será que gritar desesperadamente “dá a chave nele” irá motivar o atleta?

Do mesmo modo, gritar “vamos, vamos!” ou “você tem que socar a cara dele!” também pode, muitas vezes, não surtir efeito algum. É claro que existem alguns atletas que necessitam de um retorno verbal para se sentirem motivados (por isso o papel do ambiente e do treinador é importante).

Por que, então, é tão “difícil” motivar?

Ao contrário do que muitos pensam, não necessariamente se “motiva o atleta”. Na verdade, entende-se que condições deverão ser criadas para que seja identificada a necessidade de cada um (e também da equipe como um todo), seus objetivos e como alcançá-alos.

Ou seja, pode até que o vídeo motivacional seja utilizado – mas dentro de um contexto, sabendo qual ou quais os objetivos e o que se pretende alcançar com isso.

Motivação e Artes Marciais

Já sabemos que motivação no esporte é um campo complexo e importante. Lógico, isso não seria diferente no contexto das artes marciais e esportes de combate.

Um bom exemplo é saber que a execução perfeita de uma rotina (kata, taolu, poomsae) ou de um golpe também está, entre outros fatores, relacionada ao nível de ativação e motivação do atleta.

Mas o que fazer quando aquele lutador voraz tem demonstrado pouco interesse nas lutas? Ou quando aquele aluno que era dedicado tem se mostrado disperso, sem muita vontade de treinar as técnicas?

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Foto de Wong Kenny. Fonte: Flickr.

Ao tentar compreender essa dinâmica motivacional no contexto marcial, alguns pontos e diretrizes se fazem essenciais:

Entender os motivos dos alunos ou atletas

É preciso saber o que levou o aluno a praticar determinada arte marcial, ou o que faz querer tornar-se um competidor ou um lutador, o que o leva a querer subir no ringue – e olha, não é qualquer um que gosta de tomar chutes e socos na cara!

O que move esse sujeito?

O objetivo é chegar a faixa preta? Seguir a carreira de atleta e ganhar campeonatos? Abrir sua própria academia e dar aulas? Ter uma boa forma física? Ou é um hobbie? No caso de uma criança, ela queria praticar ou foi um desejo dos pais?

Vale lembrar que, ao longo do tempo, esses motivos e objetivos também podem mudar. Por isso, se faz necessário criar um clima positivo ou compreender individualmente estes sujeitos para continuar a motivá-los.

Outro elemento importante neste sentido é o estabelecimento de metas esportivas para alcançar os objetivos dos atletas [o que será abordado em outro artigo].

 

O ambiente e o papel do instrutor / mestre

Um ambiente esportivo pode ser estimulante ou não. Isso pode ser percebido naqueles sujeitos que, ao longo dos treinos, vão apresentando um pavor ou preguiça de pisar no tatamte. Em certos casos, pode ser que eles percebam o ambiente como pouco animador, desestimulante e que apresente poucos desafios.

Propiciar um ambiente estimulante e incentivador vai depender, principalmente, de uma análise baseada no acompanhamento do contexto em que o atleta está inserido e de quais são seus motivos.

Outro ponto importante é que o instrutor ou mestre pode ser um elemento motivador ou desmotivador dos atletas. Por exmeplo, aquele cara que vive colocando a culpa nos atletas pelos erros, mas adora assumir os louros das vitórias é um problema e tanto.

Por isso, é aconselhável que o instrutor ou mestre promova a autonomia, auto-responsabilidade e autoconfiança em seus alunos. Eles devem ter uma partipação ativa e responsável no treinamento.

O uso de recursos que potencializem o indivíduo também é indicado. Ou seja, despertar o crescimento através de elogios, incentivo, feedback, encorajamento e apoio.

Aqui, a motivação verbal (o famoso “vai, acerta!” etc) pode ser um bom recurso, mas lembre-se: cada aluno ou atleta tem sua individualidade e nem todos os recursos irão funcionar da mesma forma.

Na dúvida, é melhor e mais produtivo chamar um psicólogo do esporte para um trabalho bem estruturado e que dê resultados a curto, médio e longo prazo. 😉

Recapitulando

  • A motivação está relacionada a ativação de energia e ao comportamento intencional em direção a uma meta;
  • Possui componentes internos (pessoais) e externos (do ambiente);
  • Colocar o vídeo do Gladiador ou fazer uma simples palestra motivacional aleatória pode não surtir efeito;
  • É importante conhecer o que levou as pessoas a praticarem determinada modalidade;
  • O instrutor / mestre / treinador tem um papel fundamental neste contexto;
  • É necessário conhecer as características individuais e da equipe antes de implementar qualquer trabalho motivacional;
  • Entender as relações entre fatores internos, externos e quais os efeitos gerados no atleta;
  • Para um bom trabalho, o psicólogo do esporte se faz imprescindível.

Referências e Indicações de leitura

LOPES, F. M.; NETO, J.M.D.; VIANNA, J.A. A motivação de estudantes praticantes de arte marcial. Efdeportes.com. Buenos Aires, 2012. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd166/a-motivacao-de-praticantes-de-arte-marcial.htm.

MONACIS, Lucia; DE PALO, Valeria; SINATRA, Maria. Factores motivacionales relacionados con la agresividad en las artes marciales. Revista de Psicología del Deporte, Barcelona, 2015. Disponível em: http://www.rpd-online.com/article/viewFile/1605/monacis_de_palo_etal.

PAIVA, Leandro. Influencia da motivação verbal nos golpes realizados por atletas de MMA. In: _____. Olhar clínico nas Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. Manaus: OMP Editora, 2015.

SAMULSKI, Dietmar. Psicologia do Esporte. São Paulo: Manole, 2009.

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